quinta-feira, 9 de julho de 2009

O Inhame

Eu era um pedaço de broto de inhame, com cabelos cor-de-terra e fiapos soltando da barriga. Tinha muitos pêlos. Algumas pessoas me diziam macaco, mas pra minha mãe e pra mim mesmo eu era um inhame.

A vida no campo é terna. Sente-se um movimento mínimo de vento. Todo o mundo passa com o vento. A magia das pessoas da minha terra é de doer como a simplicidade frágil. Essas pessoas se encantam com a música, com o simples ato ou fato de haver a música, de ela tocar. Não se importam com o que toca, mas com o tocar em si, como já disse e repito. É como se sentem com relação à comida. Para essas pessoas de simplicidade frágil, não importa o que se come, mas o comer. Por isso eu sou um inhame, rico e nutritivo. Quem me come se satisfaz de tudo o que é necessário pra viver uma vida minimamente saudável.

Mas para as pessoas de simplicidade frágil, de que importa viver uma vida saudável, quando o que se quer mesmo é simples ou fragilmente viver? De que importa qual música vai tocar na vitrola, na rádio, ou até mesmo se haverá música ou transmissão de notícias da guerra. O mágico é haver ondas sonoras, o mágico é a transmissão em si.

Nosso tempo de complexidades indestrutíveis roubou a simplicidade, justamente porque ela era frágil. Hoje eu vejo as pessoas se queixarem que as músicas são ruins, os filmes não têm graça, a televisão é uma máquina de fabricar burros. O que eu vejo é uma perda irrecuperável da existência de coisas como fim em si mesmo. Hoje as pessoas discutem qual é a melhor música ou qual é a menos sensata. Quando eu nasci, nada disso importava, e talvez não continue importando na terra onde se fazem inhames. Lá ouvir música é um acontecimento. O cinema faz rir, chorar e a vida se reproduzir, mesmo embora exiba filmes publicitários. E isso porque o cinema, sendo cinema, cativa, intriga, surpreende e arrebata corações e mentes de pobres e pequenos inhames do campo.

Dessa mesma forma eu vejo que os inhames perdem a graça, é melhor comer batata frita ou sanduíches asquerosos. Pra que comer um alimento único rico em tudo, quando se pode ingerir grandes quantidades de sal e gordura e sentir-se empanturrado?

As pessoas de simplicidade frágil são aquelas que não são nada além de si mesmas. Elas não têm graça, nem produzem o que o mundo quer. Elas vivem de carona respirando o oxigênio das florestas e sorrindo para passantes nas beiras das estradas de dentro de seus casebres, emolduradas por janelinhas frágeis de madeira que abrem pra fora. Muitas vezes, usam lenços ou chapéus de palha na cabeça. Quase sempre têm a pele seca e retorcida, como a casca grossa das árvores velhas e castigadas do cerrado. Elas se tornam áridas por fora para refletir a aridez do ambiente em que vivem, e não deixar secar o âmago, o ventre que gera e multiplica inhames. Quando a simplicidade frágil delas é roubada, nada mais lhes resta, porque elas não são nada. E isso dói. Dói para um inhame gordo e felpudo saber da existência de pessoas secas e que morrem secas porque o ambiente pôde romper a casca grossa e seca, a carapaça naturalmente estimulada. Eu queria ser capaz de prover todas as vitaminas que na condição de inhame eu poderia prover. Mas sou só um inhame gordo e imobilizado pelos fiapos que me brotam em todas as partes.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

I am a rock

Eu só posso acreditar nas mãos com unhas saltadas que ela tem. Eu não possuo unhas saltadas. São dedos longos, finos, e as unhas são semi-esferas que vão e terminam num formato convexo. Não acredito numa só medíocre palavra proferida daquela boca, até porque ela tremula quando diz instigada pela verdade. Fala tanta besteira que nem ela mesma acredita, estou certo disso. Mas o que suas mãos dizem, ou melhor, suas unhas convexas, é muito mais importante. De uma importância tão suprema que não posso negar.

Eu estava vendo aqueles dedos se movimentarem diante da minha boca. A menina nova sofria e virava mulher, lá dentro da tela do cinema, mas só as unhas me importavam. Eu queria as unhas em minha boca, embora a boca das unhas só dissesse besteira. Keep from cursing, river on, river in. Minha atitude é muito mais política do que técnica. O que se faz não é meramente pensado, mas substancialmente pensado.

In the pines, in the pines, where the Sun never shines. Eram quatro horas da tarde. Recebi um telefonema que me convidava a uma festa na zona rosa da cidade. Pretendi ignorar, meu sono era mais forte até então. Mas às 7 horas, desperto, a alegria de sair e fazer o mundo girar era intensa. Eu só queria fazer essa bola azul flambar em fluidos etílicos como nunca. Eu sobreviveria, como sempre acontece no final. A diferença seria haver ou não pelos pubianos entre os dentes. Eu queria tanto aqueles pelos das unhas convexas mal pintadas, ou melhor, porcamente pintadas.

Essa garota das unhas convexas pinta sozinha a mão e passa semanas, quiçá meses, sem retocar o esmalte. E pra mim nada disso importa, porque mesmo com unhas mediocremente vermelhecidas precisando de retoque, eu me encanto e as quero em minha boca, à todo e qualquer custo.

Às 7 e meia resolvi que o mais sensato era apreciar um pouco de arte antes de fazer o mundo girar. Encontrei com ela por volta disso, dentro de um sebo a folhear A Valsa dos Deuses, de Kundera, no antro dos malcheirosos que lambem película. Ela não deu a mínima: “De quem se trata? Nunca ouvi falar”. Nada do que eu fiz foi lido corretamente. Quisera eu tivesse mais coragem e ousadia, teria destruído aquela situação num lampejo de brilhantismo e arroubado sua intimidade com beijos incandescentes. Mas não, prefiro a discrição, a medíocre e inútil discrição. Foi tudo o que me faltou, não a discrição, mas a coragem.

Não me deixei abalar, após o jantar, sorvemos uma bela taça de leiteria korova. Aquilo me causava regozijos extremos, mesmo porque não era tão simples, mas eram unhas convexas porcamente avermelhadas por esmalte de quinta categoria, e aquele ir e vir dessas unhas com uma colher que ia e vinha com leiteria korova àquela boca fabulosa me destruía. Yellow stick, and my blues!

A carne tremia ao final, quando a verdade fora estrategicamente revelada. Isto porque o fim se aproximava, seria o momento do ser ou não ser, fazer ou não. A carruagem amarela vinha buscar as unhas convexas manchadas de tinta vermelha. Eu não queria, por mim a carruagem amarela que se explodisse, desde que as unhas convexas ficassem em minha boca. Podiam ficar as unhas, os cabelos, os seios duros, empinados e fortemente juvenis. Lembrem-se, meu julgamento é político, já que a voz da razão pura e técnica não pode ser aplicada, uma vez que submeteria a lamber aquelas unhas encardidas por horas a fio.

No fim pensei: “I am a rock”. E nada mais. As verdades são tão tênues que não podem ser apagadas, justamente por serem tênues, acredita? O fundo se alcança com a mesma velocidade com que se sobe. Como já dissera, a noite não seria curta e queria ver o mundo girar. Toda a alegria que se vive sob fortes estimulantes químicos se transforma posterior e inexoravelmente numa depressão intragável, onde o fundo é inatingível e se morre em grandes pedaços a cada vez que a dose se repete. Diving, diving, diving into the bottom. Não seriam unhas coloridas de uma anca magra e graciosa que roubaria meu ímpeto de subtrair o giro do mundo.

Logrei participar de situações inusitadas, não se pode abandonar. Eu amo, amo demais todas as unhas porcamente coloridas, não que isso seja verdade, mas que só consigo ver uma única unha displicentemente esmaltada de modo a não poder esquecer de que todas têm a sua beleza. Amo todas as ancas do mundo que balbuciam e tremulam perante minha investida ousada e verdadeira. Será que ela não pode compreender que tudo o que fiz foi a mais pura verdade? Que tudo que expresso é incrivelmente verdade? Que tudo que quero é tão forte e autêntico que não há espaço pra ela não querer? A prova de que ela quer, e que está presa em camisas de força, foi entregue. Eu sei, ela não pode mentir, ninguém pode, sua voz e atitude trêmulas, desprovidas de força, denunciam. Ela quer viver, mas não quer aceitar. Nada posso além de lamentar.

A mim me apetecem as situações insólitas, quero le fighe impossíveis. O problema é que elas nunca me parecem improváveis. Sou um negligente autoral, tenho que destruir as situações adversas, embora elas insistam.

Por fim, basta dizer que só quero a verdade, a mais pura verdade. Enquanto ela dorme, o mundo gira, suas unhas convexas continuam vergonhosamente escarlates, não! Dizer escarlate seria um erro, mas vermelhecidas, continuam insidiosamente vermelhecidas. Eu as lamberia por toda a noite, mas não posso, a verdade dói demais para ela. Não posso fazer mais nada por alguém que não sabe lidar com o autêntico, a não ser esperar.