segunda-feira, 13 de abril de 2009

Mofo

Naquele dia tinha saído cedo de casa, a garoa indicava que não era hora, melhor se tivesse me mantido na cama. Mas uma tarefa penosa e inevitável me tragava. Quanto mais a adiasse, pior seria para meu estômago já bastante castigado.

A noite anterior fora repleta de sonhos reconstituídos. A robustez do convívio, a aurora da retomada. Os dias do futuro lampejavam e eu queria vivê-los com intensidade. Tomei uma decisão assim, no calor do momento.

Cheguei à casa de Vera Lúcia por volta das 6 da manhã de um domingo pós-devastação. Muita angústia para quem precisa salvar o estômago. Estava tão cheio de si e convicto, que não soube o que fazer. Rapidamente seus olhos me dissuadiram da aversão e a aurora fora adiada, mais uma vez, para me mergulhar noutros longos e espaçados dias de lassidão.

A altivez me atrai enquanto o bolor dos dias quentes e úmidos me envolve. Estou preso. Busco o sinal verde que nunca chega. Acredito no seu poder, na sua autorização, mas ele não se acende. Quero voltar para o bolor. Bom é sair e não voltar.

O Vento do Mundo

O vento que sopra traz o mundo cheio de calos e vontade de dizer mil coisas, todas juntas, perfiladas em posição de sentido. As coisas a serem ditas não se misturam às coisas a não serem ditas. Elas sabem verdadeiramente seu papel, seu lugar específico na massa cinzenta. Elas destroem, machucam e se debruçam sobre a realidade como dedos lambuzados de caramelo de maçã do amor. Já as coisas a não serem ditas abrem um buraco. Esvaziam o vazio impenetrável. A falta de ar é tremenda. O silêncio e o escuro causados por esse não dizer das coisas a não serem ditas amordaçam. Sufoco, fogo na floresta. Passos largos fogem de si mesmo. Fujo dele também. Todos correm. O tempo urge para que o dito troque de lugar com o não-dito. Erros cometidos por inconsequência desfazem a vontade de viver. O desejo fica restrito ao seu limite mínimo suportável.

domingo, 5 de abril de 2009

As aventuras do jovem Sebastião.

De tempos em tempos não posso me abster de pensar “será que eles realmente sabem o que estão fazendo?” São questões tão insolúveis como aquelas representadas pelos suspiros vespertinos de um mancebo incansável. Os períodos são tão longos quanto sua teimosia em se manter distante das verdadeiras questões. “O que são verdadeiras questões?”, perguntar-me-ia uma jovem curiosa. Não sei, respondo convicto. Na verdade tenho um palpite, verdadeiras questões são aquelas que nos fazem perder a noite. Ou não, podem ser também aquelas que nos custam caras memórias. Longos anos vindouros serão assolados por uma verdadeira questão vivida hoje. Mais uma vez, devo me abster de maiores desenvolvimentos devido ao calor do momento. Como é notável, discussões acaloradas impedem o bom raciocínio. Prossiga, jovem.

Sebastião contava dezessete anos e já ansiava por novidades. As tardes quentes e úmidas anulavam seus instintos. Vivia uma completa neutralidade de forças e pensamento. Mas naquela tarde, o objetivo último da existência humana seria profundamente alterado. “Por que desprezar os crepúsculos, se eles representam fontes tão altas de imaginação?” Mas por que? Quem garante? Crepúsculos são meras confirmações da repetição. Questiono diariamente se devo ver, ouvir ou viver, já que não se pode fazer predominantemente nenhum dos três. Sebastião decide partir. Vamos Sebastião, vamos!

Primeiro, eu lhe disse, é preciso saber aonde ir. Sebastião afirma convicto sua necessidade de ir, mesmo não sabendo aonde. Está certo, não importa, porque às vezes a gente só precisa ir. Da caixa de pandora surge a resposta, mas não é possível entender, muito complicado isso tudo, ele pensa. Diz, é verdade que as coisas se alteram com frequência?

Sebastião já foi, com diversas questões penduradas aos ombros. Insinuações são sempre armas letais, tome cuidado, advirto como um velho amigo. Sebastião é demasiado peralta para acolher. Carrega na mochila uma raquete de tênis e fórmulas prontas para enfrentar as vicissitudes. Parabéns, Sebastião é um jovem pré-moldado. Vendem-se jovens assim nas lojas de materiais de construção, ou em fábricas de vigas de azulejo. Você vai lá, paga, e eles entregam em casa. Sebastião provavelmente comprará um assim quando ficar adulto o suficiente para ter um filho.
Somos todos uma corrente de digressões. Cada um fala o que quer e ninguém regula essa babel. Os sentidos estão todos alterados, profundamente danificados. É preciso restabelecer a natureza em sua primitiva forma. É preciso conciliar as palavras. Sebastião quer ser um homem conciliador. Para isso, terá que detonar dois explosivos instalados em seu fígado e tomar injeções de adrenalina. A juventude, assim como Sebastião, está neutralizada.