quinta-feira, 25 de junho de 2009

Síntese ao sabor do momento.

Os destinos manifestos são irrevogáveis. Tenho cá pra mim que suas ancas são como bailarinas feitas de algodão que pairam sobre o ar com as sapatilhas. Seus dedos não são pontudos, mas chatos. Cabeças de martelo que me tocam dentro.

Saí de casa por volta das nove da manhã com pasta de dente na orelha. Tinha os dias nos dedos, contava tudo, pacientemente. A cabeça refletia o sol, a luz branca enviesada do inverno nos trópicos, puxa vida, como podem ser doces os invernos nos trópicos.

- Sabe quanto custam esses livros pra mim? Esses aí mesmo que você quer descartar, vender a preço módico, dar como lixo reciclável. Sabe?

- Não tenho a mínima ideia, pra mim não significam muito, não leio, não gosto, não me interesso.

- Longos invernos nos trópicos. Não me venha com essa, não agora que tanto preciso deles.

- Você precisa parar de buscar refúgio nesses livros despedacentos, eles soltam pó e te dão alergia.

- Não me importa, e não me julgue, não é uma questão de refugiar-me, mas muito mais de utilizar seus préstimos. Livros caros são melhores amigos. E estes livros aqui, estes poucos livros aqui, são verdadeiramente meus melhores amigos. Eles me acompanharam, testemunharam o desenrolar da história desenrolando estória. Eles me são muito caros. E isso porque não importa quantos livros leu um sujeito, quantos autores ele conhece, se já leu livros persas, árabes, chineses ou estórias de beduínos e pigmeus selvagens, mas se ele tem um livro, ao menos um, com o qual ele tenha afinidade. Dito isso, postulo que um sujeito só é repleto se ele já tiver lido o mesmo livro pelo menos uma centena de vezes, a ponto de conhecer toda a alma da narrativa e construir sobre ela seus mais profundos sonhos.

- Com o que você sonha agora?

- Com a transformação do inverno amargo dos trópicos em doce, pra isso preciso deles, dos Trópicos, sublimes companheiros de dulcificação. Preciso compreender como funcionam as ancas da borboleta que poderá me anular a bílis. Ela queima, hoje meu estômago estava intragável. Acredito piamente que se eu engolisse uma mosca, ela se desintegraria muito antes do fim do processo.

- Você precisa se acalmar, rapaz.

- Não consigo, elas todas me perseguem o tempo todo com seus olhos imaginativamente indiscretos, seus dedos chatos de algodão que tocam lá dentro. Elas voam em meu estômago e driblam os ácidos. Borboletas sobrevivem, moscas não. Preciso do doce. O doce dos invernos nos trópicos. Tem sido uma sucessão espetacular de invernos amargos, procedidos de saltos que me arremetem diretamente ao verão lasso. Preciso sabotar essa lógica.

- Quer viver os dias? Quer o frescor da manhã de volta na boca e a leveza de não ser ninguém? Quer não ter nada novamente a não ser um mundo a conquistar?

- Talvez minha camisa de força não me permita nem mesmo isso querer. Mas sinceramente, quero somente que cesse o turbilhão que se deslocou de minha cabeça para o estômago.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O palhaço.

O palhaço que me encanta diz que hoje vivemos em torno do sucesso. Essa mesma vida jovem, imatura, louca e desmesurada que circunda o sucesso como um urubu terá de lidar com o fracasso no futuro. Não porque todos fracassamos, mas porque todo sucesso é pouco para um urubu jovem e inconseqüente e, portanto, o fracasso e sua constatação não falharão. Velhos, maduros, a dívida da vida se torna como lidar com isso, como saber que todos os impulsos loucos da juventude não foram atingidos. Como ver que o corpo se despedaça e os dias se tornam mais longos, tão longos quanto um dia quisemos.

O palhaço diz verdades incoerentes, que só são passíveis de compreensão por quem pode ver seu desespero. Um palhaço não é lúdico, é trágico. Um palhaço não é quem faz rir, é alguém que está de fora, que não pertence, que não participa da unidade incrível e perfeita da sociedade. Temos que ser todos perfeitos para o palhaço não ser, ou temos que ser todos perfeitos para não sermos palhaços.

Ser um palhaço é mais cansativo do que ser, simplesmente ser. Para esmiuçar a realidade um palhaço projeta em si a falência. O mais interessante é que o fracasso é risível aos olhos crus, impudicos, que percebem todos os dias que não podem pensar no fracasso de suas vidas, mas somente no fracasso da vida do palhaço.

A modernidade dificulta que as pessoas enxerguem seus próprios fracassos, delírios, pequenas tragédias cotidianas ou permanentes, fatos irreversíveis. Precisamos dos palhaços para enxergar o que não queremos ver em nós mesmos, embora presente. Os pedaços de cada sorriso são expressões multiformes do silêncio imposto à voz da solidão, que agoniza, rouca, indelével pelo vento. Sou uma espinha no nariz vermelho do palhaço.

O sentido da coisa seria mais facilmente encaminhado, não compreendido, veja bem, pois não se quer compreender, caso pudéssemos viver dias de consciência sobre toda a tragédia humana, pessoal e impessoal, individual e coletiva, que nos acomete a todo instante. O palhaço somos todos nós, mas não o risível, e sim a tragédia. O palhaço não vive ou é só um sopro de consolo dos deuses tutelares das intempestividades.