Acordo com a lua. Vejo o sol se despedir. Ele me indica a hora de morrer. Tropeço em soluços. Não consigo me manter sem a rotina, mas também não consigo com ela. Todo dia é assim. Morte e vida ao contrário da luz do sol. A praia só serve à noite, pra bater e ver bater. Pras ondas pertencer. Como faço todo dia nos lençóis. Machu Picchu é a extremidade da Serra do Roncador. Vamos todos lá, conhecer, a emulação da energia vital, ou o que restou dela. A explosão do vulcão magnético cheio de lava de ternura. Porque ternura é mais bonito que amor. Porque ternura serve pra mais gente do que amor. Porque ternura me abraça, me diz o que deve ser feito sem dizer o que devo fazer, porque quem diz o que devo fazer me julga e não sabe fazer o dizer e o que diz ter feito. A águia, corajosa, lá no alto do ar rarefeito, quando percebe a demasiada protuberância do seu bico, quebra-o, batendo incansável e repetidas vezes na pedra dura e furunculada, até que ele se estraçalhe com as pancadas incessantes, rache e se desfaça para ter seus pedaços secados ao sabor do sol e do sal junto com a falta de chuva. E aí a águia sofre, chora, dói, sente vergonha, sente a nudez de seu ser, ela está ali, à mercê de o que quer que seja, sem saber exatamente ao quê, nua, triste, fodida, sofrida, sem chão, sem verdade, sem objetivo, sem alimento. Emagrece muito, até que os primeiros raios de sol começam a surgir na alvorada da sua jornada de renovação. Ainda dói, mas agora é a dor da vida, e não do fim, a dor dos dentes de leite que brotam em gengivas virgens e frescas. Ela é velha, mas de repente é como se estivesse nova. Enfrentou as trevas da auto-inflexão e a sabotagem do próprio meio de vida para apostar no futuro. E agora ele veio, sem pressão, sem freio, com naturalidade, assim, bonito, fluindo, significando cada pêlo que se abre na extremidade bucal para o adiantamento do novo bico. Quando ele cresce, está novo, de novo, em gengivas virgens, em busca do alimento para revigorar a carne, o ser, o sentido da vida, a vida em si. Nova, rejuvenescida, a águia parte em seu voo para buscar a caça e realizar o sentido da sua vida novamente, como se tivesse morrido e vivido dentro de uma só mesma vida.
domingo, 21 de novembro de 2010
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Crer
Sabedoria é crime? Perguntou Ozar para mim. Claro que pode ser. Da mesma forma que tudo é político. Sabedoria é um ato político. Amar é um político. Sentir e sofrer é um ato político. As decisões de cada dia, de cada instante, fazem crer que o mistério do acontecido só se acentua. Parar e pensar cinquenta vezes é redundância, mas pensar só duas é uma maneira de ser sábio. Essas músicas do Interpol realmente embalam um domingo chuvoso. É tão difícil pensar, sentir, transcender, desbloquear. Cada dia que envelheço aumentam as barreiras. Fica pior pra me mover. Atado, ataviado, atravessado. Está tudo atravessado na garganta. Vontade de não fazer nada por nada com nada. E aí? Vai ser um velhote deprimido? Que coisa patética. Há tantas coisas pra fazer, e nada agrada. Nada serve. É um verme que corrói dentro. Ele fica quietinho comendo. Vou pegar um avião e sumir pra essas bandas por aí. Quanta dificuldade para acreditar. O que quero é crer. Mas não há algo. Não há norte. Não há ligação possível. Não parece haver saída, nem beco, nem fim, só há o que não há. Só é o que não é. Só faz o que desfaz. Só pratica o que transgride. Não há mais o que transgredir. Só a carne. Cortar a carne e sentir a dor. A verdade da dor não nega. Não tem vergonha. Não padece. Não desiste face às lágrimas. A dor só doi, só sabe doer e doer e doer. Sem fim. Sem começo. Sem meio. Sem talvez. Sem depois. Sem por que.
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