Os destinos manifestos são irrevogáveis. Tenho cá pra mim que suas ancas são como bailarinas feitas de algodão que pairam sobre o ar com as sapatilhas. Seus dedos não são pontudos, mas chatos. Cabeças de martelo que me tocam dentro.
Saí de casa por volta das nove da manhã com pasta de dente na orelha. Tinha os dias nos dedos, contava tudo, pacientemente. A cabeça refletia o sol, a luz branca enviesada do inverno nos trópicos, puxa vida, como podem ser doces os invernos nos trópicos.
- Sabe quanto custam esses livros pra mim? Esses aí mesmo que você quer descartar, vender a preço módico, dar como lixo reciclável. Sabe?
- Não tenho a mínima ideia, pra mim não significam muito, não leio, não gosto, não me interesso.
- Longos invernos nos trópicos. Não me venha com essa, não agora que tanto preciso deles.
- Você precisa parar de buscar refúgio nesses livros despedacentos, eles soltam pó e te dão alergia.
- Não me importa, e não me julgue, não é uma questão de refugiar-me, mas muito mais de utilizar seus préstimos. Livros caros são melhores amigos. E estes livros aqui, estes poucos livros aqui, são verdadeiramente meus melhores amigos. Eles me acompanharam, testemunharam o desenrolar da história desenrolando estória. Eles me são muito caros. E isso porque não importa quantos livros leu um sujeito, quantos autores ele conhece, se já leu livros persas, árabes, chineses ou estórias de beduínos e pigmeus selvagens, mas se ele tem um livro, ao menos um, com o qual ele tenha afinidade. Dito isso, postulo que um sujeito só é repleto se ele já tiver lido o mesmo livro pelo menos uma centena de vezes, a ponto de conhecer toda a alma da narrativa e construir sobre ela seus mais profundos sonhos.
- Com o que você sonha agora?
- Com a transformação do inverno amargo dos trópicos em doce, pra isso preciso deles, dos Trópicos, sublimes companheiros de dulcificação. Preciso compreender como funcionam as ancas da borboleta que poderá me anular a bílis. Ela queima, hoje meu estômago estava intragável. Acredito piamente que se eu engolisse uma mosca, ela se desintegraria muito antes do fim do processo.
- Você precisa se acalmar, rapaz.
- Não consigo, elas todas me perseguem o tempo todo com seus olhos imaginativamente indiscretos, seus dedos chatos de algodão que tocam lá dentro. Elas voam em meu estômago e driblam os ácidos. Borboletas sobrevivem, moscas não. Preciso do doce. O doce dos invernos nos trópicos. Tem sido uma sucessão espetacular de invernos amargos, procedidos de saltos que me arremetem diretamente ao verão lasso. Preciso sabotar essa lógica.
- Quer viver os dias? Quer o frescor da manhã de volta na boca e a leveza de não ser ninguém? Quer não ter nada novamente a não ser um mundo a conquistar?
- Talvez minha camisa de força não me permita nem mesmo isso querer. Mas sinceramente, quero somente que cesse o turbilhão que se deslocou de minha cabeça para o estômago.
Saí de casa por volta das nove da manhã com pasta de dente na orelha. Tinha os dias nos dedos, contava tudo, pacientemente. A cabeça refletia o sol, a luz branca enviesada do inverno nos trópicos, puxa vida, como podem ser doces os invernos nos trópicos.
- Sabe quanto custam esses livros pra mim? Esses aí mesmo que você quer descartar, vender a preço módico, dar como lixo reciclável. Sabe?
- Não tenho a mínima ideia, pra mim não significam muito, não leio, não gosto, não me interesso.
- Longos invernos nos trópicos. Não me venha com essa, não agora que tanto preciso deles.
- Você precisa parar de buscar refúgio nesses livros despedacentos, eles soltam pó e te dão alergia.
- Não me importa, e não me julgue, não é uma questão de refugiar-me, mas muito mais de utilizar seus préstimos. Livros caros são melhores amigos. E estes livros aqui, estes poucos livros aqui, são verdadeiramente meus melhores amigos. Eles me acompanharam, testemunharam o desenrolar da história desenrolando estória. Eles me são muito caros. E isso porque não importa quantos livros leu um sujeito, quantos autores ele conhece, se já leu livros persas, árabes, chineses ou estórias de beduínos e pigmeus selvagens, mas se ele tem um livro, ao menos um, com o qual ele tenha afinidade. Dito isso, postulo que um sujeito só é repleto se ele já tiver lido o mesmo livro pelo menos uma centena de vezes, a ponto de conhecer toda a alma da narrativa e construir sobre ela seus mais profundos sonhos.
- Com o que você sonha agora?
- Com a transformação do inverno amargo dos trópicos em doce, pra isso preciso deles, dos Trópicos, sublimes companheiros de dulcificação. Preciso compreender como funcionam as ancas da borboleta que poderá me anular a bílis. Ela queima, hoje meu estômago estava intragável. Acredito piamente que se eu engolisse uma mosca, ela se desintegraria muito antes do fim do processo.
- Você precisa se acalmar, rapaz.
- Não consigo, elas todas me perseguem o tempo todo com seus olhos imaginativamente indiscretos, seus dedos chatos de algodão que tocam lá dentro. Elas voam em meu estômago e driblam os ácidos. Borboletas sobrevivem, moscas não. Preciso do doce. O doce dos invernos nos trópicos. Tem sido uma sucessão espetacular de invernos amargos, procedidos de saltos que me arremetem diretamente ao verão lasso. Preciso sabotar essa lógica.
- Quer viver os dias? Quer o frescor da manhã de volta na boca e a leveza de não ser ninguém? Quer não ter nada novamente a não ser um mundo a conquistar?
- Talvez minha camisa de força não me permita nem mesmo isso querer. Mas sinceramente, quero somente que cesse o turbilhão que se deslocou de minha cabeça para o estômago.
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